George Orwell: literatura e ideologia


George Orwell: a literatura e as guerras ideológicas

Os dois textos de George Orwell aqui traduzidos (com o auxílio luxuoso do Google Tradutor; na verdade, ele traduziu e eu só revisei e dei uns pitacos estilísticos), “The Frontiers of Art and Propaganda” e “Literature and totalitarianism”, foram escolhidos pelas seguintes razões:

1) os textos são escritos por uma mente aguda e por um grande talento literário, que apresentam questões altamente relevantes para os intelectuais e literatos dos anos 1930-40, além, é claro, de ser esta uma oportunidade de disponibilizar uma face da obra orwelliana que não me parece muito popular no Brasil;

2) a relação entre ideologia e literatura, comentada e problematizada nos textos, está também muito presente na literatura brasileira da última década, influenciando sobremaneira a produção literária, a crítica e o mercado de livros.

Se, na época de Orwell, o conflito ideológico se dava entre fascismo e comunismo (ou melhor, stalinismo), e entre ideias liberais e controle opressivo do Estado, hoje, no Brasil, o principal conflito parece ocorrer entre ideias progressistas e reacionarismo político-cultural, entre os defensores das minorias e os misóginos/racistas/homofóbicos.

A reação do campo progressista vem produzindo uma literatura explicitamente engajada, expressa numa escrita de estilo realista (ou “jorno-naturalista”, como diria Paulo Leminski), sem nenhuma pretensão de “invenção de linguagem”, esta tão típica do alto-modernismo. Essa tendência da literatura contemporânea é afiançada pela crítica (a que ainda resta e resiste), pelos prêmios literários e pelo mercado de livros.

Basta observarmos os títulos e os autores  das obras vencedoras dos principais prêmios literários de anos recentes para que se verifique a influência da ideologia progressista na nossa produção literária. Livros com temática indígena, negra ou homossexual têm regularmente sido agraciados com as primeiras colocações.

Não faz muito tempo, li um regulamento de um concurso literário que afirmava que autores negros, homossexuais e mulheres já largavam com uma vantagem sobre os demais participantes.

É claro que essa situação não é nova e que é também plenamente compreensível, afinal, algo semelhante ocorreu em nosso país nos anos 1930-40, com o Romance de 30, e na chamada “literatura pós-64”, provocada pela repressão da ditadura empresarial-militar.

Há momentos na História em que questões sociais e políticas obrigam os autores a tomarem uma posição, a se engajarem. Citemos um trecho de “As fronteiras da arte e da propaganda”:

Em um mundo em que o fascismo e o socialismo lutavam entre si, qualquer pessoa que pensava era obrigada a escolher um lado, e seus sentimentos deveriam encontrar seu caminho não apenas em seus escritos, mas também em suas posições sobre a literatura. A literatura teve que se tornar política, porque o contrário disso seria desonestidade mental. As simpatias e ódios das pessoas estavam muito próximos da superfície da consciência para que fossem ignorados. O tema dos livros parecia tão urgentemente importante que a forma como foram escritos parecia quase insignificante.

Porém, neste nosso momento “pós-moderno”, em que há uma total (con)fusão entre Capital e Cultura, a produção desse tipo de literatura engajada pode correr o risco de estar apenas atendendo ao interesse do Mercado, que transforma boas intenções em mercadoria e dinheiro.

Para encerrar, citemos Fredric Jameson e seu ensaio “‘Fim da arte’ ou ‘fim da história’?”, publicado em A cultura do dinheiro (Petrópolis, RJ: Vozes, 2001, p. 73):

Nos últimos anos tenho argumentado com insistência que tal conjuntura [anos 1980-1990] é marcada por uma desdiferenciação de campos, de modo que a economia acabou por coincidir com a cultura, fazendo com que tudo, inclusive a produção de mercadorias e a alta especulação financeira, se tornasse cultural, enquanto que a cultura tornou-se profundamente econômica, igualmente orientada para a produção de mercadorias.

Uma última observação: disponibilizamos também os dois textos no idioma original, para aqueles que preferirem ler George Orwell em sua língua materna.

Boa leitura a todxs!

 

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AS FRONTEIRAS DA ARTE E DA PROPAGANDA

Uma palestra transmitida no B.B.C. Overseas Service, em 30 de abril de 1941;impresso na Listener, em 29 de maio de 1941.  Falo sobre crítica literária e, no mundo em que estamos vivendo, isso é quase tão pouco auspicioso quanto falar de paz. Esta não é uma era pacífica, e não é uma era da crítica. Na Europa dos últimos dez anos, a crítica literária daquele tipo mais antigo — crítica que é realmente criteriosa, escrupulosa, imparcial, tratando a obra de arte como algo que tem valor em si mesma — tem sido praticamente impossível.Se lançarmos um olhar para a literatura inglesa dos últimos dez anos, não tanto para a literatura, mas para a atitude literária predominante, a coisa que mais nos impressiona é que ela quase deixou de ser estética. A literatura foi inundada pela propaganda. Não quero dizer que todos os livros escritos durante esse período tenham sido ruins. Mas os escritores característicos da época, gente como Auden, Spender e MacNeice, foram escritores didáticos e políticos, esteticamente conscientes, é claro, porém, mais interessados ​​em tratar de assuntos e menos na técnica. E a crítica mais vivaz tem sido praticamente toda uma obra de escritores marxistas, gente como Christopher Caudwell, Philip Henderson e Edward Upward, que enxergam cada livro como virtualmente um panfleto político e estão muito mais interessados ​​em desenterrar suas implicações políticas e sociais do que observar suas qualidades literárias em sentido estrito. Isso tudo é ainda mais impressionante por criar um contraste muito nítido e repentino com o período imediatamente anterior. Os escritores característicos da década de 1920 – T. S. Eliot, por exemplo, Ezra Pound, Virginia Woolf – eram escritores que colocavam toda a ênfase na técnica. Eles tinham suas crenças e preconceitos, é claro, mas estavam muito mais interessados ​​em inovações técnicas do que em qualquer moral, significado ou implicação política que o trabalho deles pudesse conter. O melhor de todos eles, James Joyce, era um técnico e um pouco mais, tão próximo de ser um artista “puro” quanto pode ser um escritor. Mesmo D. H. Lawrence, embora fosse mais um “escritor com um propósito” do que a maioria dos outros de seu tempo, não tinha muito daquilo que agora poderíamos chamar de consciência social. E embora eu tenha limitado isso para os anos 1920, na verdade, a coisa tem sido igual desde 1890 em diante. Ao longo de todo esse período, a noção de que a forma é mais importante do que o assunto, a noção de “arte pela arte”, foi tomada como certa. Houve escritores que discordaram, é claro — Bernard Shaw foi um deles —, mas aquela era a perspectiva predominante. O crítico mais importante do período, George Saintsbury, era um homem muito velho nos anos 1920, mas exerceu uma influência poderosa até cerca de 1930, e Saintsbury manteve sempre, com firmeza, uma atitude técnica em relação à arte. Ele alegou que ele mesmo poderia e julgaria qualquer livro apenas por sua execução, seu estilo, e que era quase indiferente às opiniões do autor.Agora, como se pode explicar tamanha mudança repentina de perspectiva? Por volta do final dos anos 1920, você recebe um livro como o de Edith Sitwell sobre Pope, com uma ênfase completamente frívola sobre a técnica, tratando a literatura como uma espécie de bordado, quase como se as palavras não tivessem significado: e apenas alguns anos mais tarde vê-se um crítico marxista como Edward Upward afirmando que os livros só podem ser “bons” quando seguem uma tendência marxista. Em certo sentido, Edith Sitwell e Edward Upward foram representativos de seu período. A questão é: por que a perspectiva deles deveria ser tão diferente?Penso que se deve procurar o motivo em circunstâncias externas. Tanto a atitude estética quanto a atitude política em relação à literatura foram produzidas ou, pelo menos, condicionadas pela atmosfera social de um determinado período. E agora que outro período terminou – pois o ataque de Hitler à Polônia em 1939 certamente encerrou uma época assim como a grande recessão de 1931 encerrou outra –, pode-se olhar retrospectivamente e ver com mais clareza do que era possível alguns anos atrás a forma como as atitudes literárias são afetadas por eventos externos. Uma coisa que impressiona quem olha para os últimos cem anos é que a crítica literária que realmente importa e a atitude crítica em relação à literatura mal existiram na Inglaterra entre aproximadamente 1830 e 1890. Não é que bons livros não tenham sido produzidos naquele período. Vários escritores da época, como Dickens, Thackeray, Trollop e outros, provavelmente serão lembrados por muito mais tempo do que qualquer um que apareceu depois deles. Porém, não há figuras literárias na Inglaterra vitoriana que correspondam a Flaubert, Baudelaire, Gautier e muitos outros. O que agora nos parece um escrúpulo estético, antes mal existia. Para um escritor inglês de meados da era vitoriana, um livro era, em parte, algo que lhe trazia dinheiro, e, em parte, um veículo para pregar sermões. A Inglaterra estava mudando muito rapidamente, uma nova classe endinheirada surgiu das ruínas da velha aristocracia, o contato com a Europa foi interrompido e uma longa tradição artística foi quebrada. Os escritores ingleses de meados do século XIX eram bárbaros, mesmo quando, por acaso, eram artistas talentosos, como Dickens.Porém, na parte final do século, o contato com a Europa foi restabelecido através de Matthew Arnold, Pater, Oscar Wilde e vários outros, e o respeito pela forma e pela técnica na literatura voltou. É a partir desse momento que a noção de “arte pela arte” – frase muito fora de moda, mas ainda, penso eu, a melhor que temos – realmente é datada. E a razão pela qual ela pôde florescer por tanto tempo, e ser tão inquestionável, se deveu a que todo o período entre 1890 e 1930 foi de excepcional conforto e segurança. Esse momento foi o que poderíamos chamar de tarde dourada da era capitalista. Mesmo a Grande Guerra, na verdade, não o perturbou. A Grande Guerra matou dez milhões de homens, mas não abalou o mundo como esta guerra atual vai abalá-lo e já o abalou. Quase todos os europeus entre 1890 e 1930 viviam na crença tácita de que a civilização duraria para sempre. Alguém poderia ser individualmente mais afortunado ou mais infeliz, mas tinha dentro de si a sensação de que nada mudaria de fundamental. E, nessa espécie de ambiente, o distanciamento intelectual e também o diletantismo são possíveis. É esse sentimento de continuidade, de segurança, que poderia tornar possível para um crítico como Saintsbury, um verdadeiro e venerável Tory e alto clérigo, ser escrupulosamente justo com livros escritos por homens cuja visão política e moral ele detestava. Contudo, desde 1930, essa sensação de segurança não mais existiu. Hitler e a recessão a destruíram como a Grande Guerra e até mesmo a Revolução Russa falharam em destruí-la. Os escritores surgidos a partir de 1930 vivem em um mundo em que não apenas a vida das pessoas, mas todo um esquema de valores é constantemente ameaçado. Em tais circunstâncias, a indiferença não é possível. Você não pode ter um interesse puramente estético por uma doença que o está matando; você não pode não sentir nada diante de um homem que está prestes a cortar sua garganta. Em um mundo em que o fascismo e o socialismo lutavam entre si, qualquer pessoa que pensava era obrigada a escolher um lado, e seus sentimentos deveriam encontrar seu caminho não apenas em seus escritos, mas também em suas posições sobre a literatura. A literatura teve que se tornar política, porque o contrário disso seria desonestidade mental. As simpatias e ódios das pessoas estavam muito próximos da superfície da consciência para que fossem ignorados. O tema dos livros parecia tão urgentemente importante que a forma como foram escritos parecia quase insignificante.E esse período de cerca de dez anos em que a literatura, e mesmo a poesia, se confundiu com a panfletagem, prestou um grande serviço à crítica literária, porque destruiu a ilusão do puro esteticismo. O que nos fez lembrar que a propaganda, de uma forma ou de outra, esconde-se em cada livro, que toda obra de arte possui um significado e um propósito – um propósito político, social e religioso – que nossos julgamentos estéticos são sempre matizados por nossos preconceitos e crenças. Isso desmascarou a arte pela arte. Mas também isso levou, por enquanto, a um beco sem saída, porque fez com que inúmeros jovens escritores tentassem amarrar suas mentes a uma disciplina política que, se tivessem aderido a ela, tornaria impossível a honestidade mental. O único sistema de pensamento aberto para eles, naquele momento, era o marxismo oficial, que exigia uma lealdade nacionalista para com a Rússia e forçava o escritor que se autodenominava marxista a se envolver com as desonestidades da política de poder. E mesmo que isso fosse desejável, as hipóteses que esses escritores construíram foram repentinamente destruídas pelo pacto Russo-Alemão. Assim como muitos escritores, por volta de 1930, descobriram que não se pode realmente apartar-se dos eventos contemporâneos, muitos escritores, por volta de 1939, estavam descobrindo que não se pode realmente sacrificar a integridade intelectual por causa de um credo político – ou, pelo menos, não se pode fazê-lo e continuar sendo um escritor. Não basta o escrúpulo estético, mas também não basta o politicamente correto. Os eventos dos últimos dez anos nos deixaram um pouco no ar, eles deixaram a Inglaterra, por enquanto, sem nenhuma tendência literária perceptível, mas nos ajudaram a definir, melhor do que era possível antes, as fronteiras da arte e da propaganda.

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LITERATURA E TOTALITARISMO
Uma palestra transmitida no B.B.C. Overseas Service;  impressa na Listener, em 19 de junho de 1941.

 

Eu disse, no início de minha primeira palestra, que esta não é uma idade da crítica. É uma época de partidarismo e não de distanciamento, uma época em que é especialmente difícil ver mérito literário em um livro de cujas conclusões você discorda. A política — a política no sentido mais geral — invadiu a literatura, de uma maneira que normalmente não acontece, e trouxe à tona a consciência de que a luta sempre ocorre entre o indivíduo e a comunidade. É quando se considera a dificuldade de escrever uma crítica honesta e imparcial num tempo como o nosso, que se começa a entender a natureza da ameaça que paira sobre toda a literatura na era que está por vir.
Vivemos numa época em que o indivíduo autônomo não mais vai existir – ou, talvez deva se dizer, em que o indivíduo está perdendo a ilusão de ser autônomo. Agora, de tudo o que dizemos sobre a literatura, e (sobretudo) de tudo o que dizemos sobre a crítica, instintivamente tomamos por certo o indivíduo autônomo. Toda a literatura europeia moderna – falo da literatura dos últimos quatrocentos anos – é construída sobre o conceito de honestidade intelectual, ou, se você quiser colocar dessa forma, sobre a máxima de Shakespeare, “To thine own self be  true”. A primeira coisa que pedimos a um escritor é que ele não deve dizer mentiras, que ele deve dizer o que realmente pensa, o que realmente sente. A pior coisa que podemos dizer sobre uma obra de arte é que ela é insincera. E isso é ainda mais verdadeiro para a crítica do que para a literatura criativa, na qual uma certa dose de afetação e maneirismo, e até mesmo uma certa dose de puro ardil, não tem importância, desde que o escritor seja fundamentalmente sincero. A literatura moderna é essencialmente algo individual. Ou ela é a expressão verdadeira do que um homem pensa e sente, ou não é coisa alguma.

Como eu disse, tomamos essa noção como certa e, no entanto, assim que a colocamos em palavras, percebemos como a literatura está ameaçada. Porque esta é a era do estado totalitário, que não permite e, provavelmente, não pode permitir qualquer espécie de liberdade ao indivíduo. Quando falamos em totalitarismo, imediatamente  pensamos na Alemanha, na Rússia, na Itália, mas acho que devemos encarar o fato de que esse fenômeno é mundial.  É óbvio que o período de capitalismo livre está chegando ao fim e que um país após o outro está adotando uma economia centralizada que podemos chamar de Socialismo ou capitalismo de estado, conforme a preferência. Com isso, a liberdade econômica do indivíduo e, em grande medida, a liberdade de se fazer o que se quiser, de escolher seu próprio trabalho, de se mover de lá pra cá sobre a superfície da terra, tudo isso chega ao fim. Agora, até recentemente, as implicações disso não foram previstas. Nunca foi plenamente compreendido que o desaparecimento da liberdade econômica teria efeito sobre a liberdade intelectual. O Socialismo era geralmente compreendido como uma espécie de liberalismo moralizado. O Estado se encarregaria de sua vida econômica e o libertaria do medo da pobreza, do desemprego, e assim por diante, mas ele não precisaria interferir na sua vida intelectual privada. A arte poderia florescer da mesma forma como havia acontecido na era liberal-capitalista, apenas um pouco mais, já que o artista não estaria mais sob pressões econômicas.

Agora, a partir das evidências existentes, devemos admitir que essas ideias foram falsificadas. O totalitarismo aboliu a liberdade de pensamento numa dimensão inédita se comparada a qualquer época anterior. E é importante perceber que seu controle do pensamento não é apenas negativo, mas também positivo. Esse controle não apenas proíbe você de expressar – e até mesmo de pensar – certos pensamentos, mas também dita o que você deve pensar, ele cria uma ideologia para você, tenta governar sua vida emocional e também estabelecer um código de conduta. E, na medida do possível, isola você do mundo exterior, encerra você em um universo artificial, dentro do qual você não tem padrões de comparação. O estado totalitário tenta, de qualquer maneira, controlar os pensamentos e as emoções de seus súditos, pelo menos tão completamente quanto controla suas ações.

A questão importante para nós é a seguinte: pode a literatura sobreviver sob tal atmosfera? Penso que se deve responder em poucas palavras: não. Se o totalitarismo se tornar mundial e permanente, o que havíamos conhecido como literatura, necessariamente chegará ao fim.  E não adianta – como, para alguns, pode parecer plausível à primeira vista – dizer que o que chegará ao fim é simplesmente a literatura da Europa pós-renascentista.

Há várias diferenças vitais entre o totalitarismo e todas as ortodoxias do passado, seja na Europa, seja no Oriente. O mais importante é que as ortodoxias do passado não mudavam, ou pelo menos não mudavam rapidamente. Na Europa medieval, a Igreja dizia no que você deveria acreditar, mas, pelo menos, permitia que você mantivesse as mesmas crenças desde o nascimento até a morte. Ela não dizia para você acreditar em uma coisa na segunda-feira e, em outra, na terça-feira. E o mesmo é mais ou menos verdadeiro para qualquer cristão ortodoxo, hindu, budista ou muçulmano ainda hoje.  Em certo sentido, os pensamentos dessa pessoa são circunscritos, mas ela passou sua vida inteira dentro da mesma estrutura de pensamento. As emoções dela não são adulteradas.

Agora, com o totalitarismo, exatamente o contrário disso é verdadeiro. A peculiaridade do estado totalitário é que, embora controle o pensamento, ele não o determina.  Ele estabelece dogmas inquestionáveis, e os altera todos os dias. Ele precisa dos dogmas, já que necessita da obediência absoluta de seus súditos, mas não pode evitar as mudanças, que são ditadas pelas necessidades do poder político. Ele declarou-se infalível e, ao mesmo tempo, ataca o próprio conceito de verdade objetiva. Para darmos um exemplo grosseiro e óbvio, todo alemão, até setembro de 1939, teve que perceber o bolchevismo russo com horror e aversão, e, desde setembro de 1939, ele teve que passar a percebê-lo com admiração e afeição. Se Rússia e Alemanha entrarem em guerra, como deverá acontecer nos próximos anos, outra mudança igualmente violenta deverá ocorrer. A vida emocional do alemão, seus amores e ódios, espera-se que, quando necessário, sejam alterados da noite para o dia. Quase desnecessário apontar o efeito desse tipo de coisa sobre a literatura. Pois escrever é, em grande parte, uma questão de sentimento, que nem sempre pode ser controlado de fora. É fácil falar sobre ortodoxia do momento, mas a escrita que tenha alguma consequência só pode ser produzida quando um homem sente a verdade do que está dizendo; sem isso, há falta do impulso criativo. Todas as evidências que temos sugerem que as mudanças emocionais repentinas que o totalitarismo exige de seus seguidores são psicologicamente impossíveis. E essa é a razão central que me leva a sugerir que, se o totalitarismo triunfar ao redor do mundo, a literatura, como a conhecemos, está por terminar. E, de fato, o totalitarismo, até o momento, parece ter tido esse efeito. Na Itália, a literatura foi aleijada e, na Alemanha, parece que quase acabou. A atividade mais característica dos nazistas é a queima dos livros. E, mesmo na Rússia, o renascimento literário que se esperava acabou não acontecendo, e os escritores russos mais promissores mostram uma forte tendência ao suicídio ou a desaparecer nas prisões.

Eu havia dito antes que o capitalismo liberal está claramente chegando ao fim e, portanto, posso ter parecido sugerir que a liberdade de pensamento está também inevitavelmente condenada.  Porém, não acredito que seja assim, e apenas direi, para concluir, que acredito que a esperança de sobrevivência da literatura está naqueles países em que o liberalismo chegou às suas raízes mais profundas, naqueles países não-militares, a Europa Ocidental e as Américas,  a Índia e a China. Acredito – e pode ser apenas uma esperança piedosa – que, embora uma economia coletivizada esteja por vir, aqueles países saberão como desenvolver uma forma de Socialismo que não seja totalitária, na qual a liberdade de pensamento possa sobreviver ao desaparecimento do individualismo econômico.  Essa, de qualquer maneira, é a única esperança à qual pode se apegar qualquer pessoa que se interesse por literatura. Qualquer um que sinta o valor da literatura, que veja o papel central que ela desempenha no desenvolvimento da história humana, deve ver também a necessidade de vida e morte de resistir ao totalitarismo, seja ele imposto a nós de fora ou de dentro.

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THE FRONTIERS OF ART AND PROPAGANDA
A broadcast talk in the B.B.C. Overseas Service, 30 April 1941; printed in the Listener, 29 May 1941.

 

I am speaking on literary criticism, and in the world in which we are actually living that is almost as unpromising as speaking about peace. This is not a peaceful age, and it is not a critical age. In the Europe of the last ten years literary criticism of the older kind — criticism that is really judicious, scrupulous, fair-minded, treating a work of art as a thing of value in itself — has been next door to impossible.

If we look back at the English literature of the last ten years not so much at the literature as at the prevailing literary attitude, the thing that strikes us is that it has almost ceased to be aesthetic. Literature has been swamped by propaganda. I do not mean that all the books written during that period have been bad. But the characteristic writers of the time, people like Auden and Spender and MacNeice, have been didactic, political writers, aesthetically conscious, of course, but more interested in subject-matter than in technique. And the most lively criticism has nearly all of it been the work of Marxist writers, people like Christopher Caudwell and Philip Henderson and Edward Upward, who look on every book virtually as a political pamphlet and are far more interested in digging out its political and social implications than in its literary qualities in the narrow sense.

This is all the more striking because it makes a very sharp and sudden contrast with the period immediately before it. The characteristic writers of the nineteen-twenties — T. S. Eliot, for instance, Ezra Pound, Virginia Woolf — were writers who put the main emphasis on technique. They had their beliefs and prejudices, of course, but they were far more interested in technical innovations than in any moral or meaning or political implication that their work might contain. The best of them all, James Joyce, was a technician and very little else, about as near to being a ‘pure’ artist as a writer can be. Even D. H. Lawrence, though he was more of a ‘writer with a purpose’ than most of the others of his time, had not much of what we should now call social consciousness. And though I have narrowed this down to the nineteen-twenties, it had really been the same from about 1890 onwards. Throughout the whole of that period, the notion that form is more important than subject-matter, the notion of ‘art for art’s sake’, had been taken for granted. There were writers who disagreed, of course — Bernard Shaw was one — but that was the prevailing outlook. The most important critic of the period, George Saintsbury, was a very old man in the nineteen-twenties, but he had a powerful influence up to about 1930, and Saintsbury had always firmly upheld the technical attitude to art. He claimed that he himself could and did judge any book solely on its execution, its manner, and was very nearly indifferent to the author’s opinions.

Now, how is one to account for this very sudden change of outlook? About the end of the nineteen-twenties you get a book like Edith Sitwell’s book on Pope, with a completely frivolous emphasis on technique, treating literature as a sort of embroidery, almost as though words did not have meanings: and only a few years later you get a Marxist critic like Edward Upward asserting that books can be ‘good’ only when they are Marxist in tendency. In a sense both Edith Sitwell and Edward Upward were representative of their period. The question is why should their outlook be so different?

I think one has got to look for the reason in external circumstances. Both the aesthetic and the political attitude to literature were produced, or at any rate conditioned by the social atmosphere of a certain period. And now that another period has ended — for Hitler’s attack on Poland in 1939 ended one epoch as surely as the great slump of 1931 ended another — one can link back and see more clearly than was possible a few years ago the way in which literary attitudes are affected by external events. A thing that strikes anyone who looks back over the last hundred years is that literary criticism worth bothering about, and the critical attitude towards literature, barely existed in England between roughly 1830 and 1890. It is not that good books were not produced in that period. Several of the writers of that time, Dickens, Thackeray, Trollop and others, will probably be remembered longer than any that have come after them. But there are not literary figures in Victorian England corresponding to Flaubert, Baudelaire, Gautier and a host of others. What now appears to us as aesthetic scrupulousness hardly existed. To a mid-Victorian English writer, a book was partly something that brought him money and partly a vehicle for preaching sermons. England was changing very rapidly, a new moneyed class had come up on the ruins of the old aristocracy, contact with Europe had been severed, and a long artistic tradition had been broken. The mid-nineteenth-century English writers were barbarians, even when they happened to be gifted artists, like Dickens.

But in the later part of the century contact with Europe was re-established through Matthew Arnold, Pater, Oscar Wilde and various others, and the respect for form and technique in literature came back. It is from then that the notion of ‘art for art’s sake’ — a phrase very much out of fashion, but still, I think, the best available — really dates. And the reason why it could flourish so long, and be so much taken for granted, was that the whole period between 1890 and 1930 was one of exceptional comfort and security. It was what we might call the golden afternoon of the capitalist age. Even the Great War did not really disturb it. The Great War killed ten million men, but it did not shake the world as this war will shake it and has shaken it already. Almost every European between 1890 and 1930 lived in the tacit belief that civilization would last forever. You might be individually fortunate or unfortunate, but you had inside you the feeling that nothing would ever fundamentally change. And in that kind of atmosphere intellectual detachment, and also dilettantism, are possible. It is that feeling of continuity, of security, that could make it possible for a critic like Saintsbury, a real old crusted Tory and High Churchman, to be scrupulously fair to books written by men whose political and moral outlook he detested.

But since 1930 that sense of security has never existed. Hitler and the slump shattered it as the Great War and even the Russian Revolution had failed to shatter it. The writers who have come up since 1930 have been living in a world in which not only one’s life but one’s whole scheme of values is constantly menaced. In such circumstances detachment is not possible. You cannot take a purely aesthetic interest in a disease you are dying from; you cannot feel dispassionately about a man who is about to cut your throat. In a world in which Fascism and Socialism were fighting one another, any thinking person had to take sides, and his feelings had to find their way not only into his writing but into his judgements on literature. Literature had to become political, because anything else would have entailed mental dishonesty. One’s attachments and hatreds were too near the surface of consciousness to be ignored. What books were about seemed so urgently important that the way they were written seemed almost insignificant.

And this period of ten years or so in which literature, even poetry, was mixed up with pamphleteering, did a great service to literary criticism, because it destroyed the illusion of pure aestheticism. It reminded us that propaganda in some form or other lurks in every book, that every work of art has a meaning and a purpose — a political, social and religious purpose — that our aesthetic judgements are always coloured by our prejudices and beliefs. It debunked art for art’s sake. But is also led for the time being into a blind alley, because it caused countless young writers to try to tie their minds to a political discipline which, if they had stuck to it, would have made mental honesty impossible. The only system of thought open to them at that time was official Marxism, which demanded a nationalistic loyalty towards Russia and forced the writer who called himself a Marxist to be mixed up in the dishonesties of power politics. And even if that was desirable, the assumptions that these writers built upon were suddenly shattered by the Russo-German Pact. Just as many writers about 1930 had discovered that you cannot really be detached from contemporary events, so many writers about 1939 were discovering that you cannot really sacrifice your intellectual integrity for the sake of a political creed — or at least you cannot do so and remain a writer. Aesthetic scrupulousness is not enough, but political rectitude is not enough either. The events of the last ten years have left us rather in the air, they have left England for the time being without any discoverable literary trend, but they have helped us to define, better than was possible before, the frontiers of art and propaganda.

 

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LITERATURE AND TOTALITARIANISM
A broadcast talk in the B.B.C. Overseas Service; printed in the Listener, 19 June 1941.

I said at the beginning of my first talk that this is not a critical age. It is an age of partisanship and not of detachment, an age in which it is especially difficult to see literary merit in a book with whose conclusions you disagree. Politics — politics in the most general sense — have invaded literature, to an extent that does not normally happen, and this has brought to the surface of our consciousness the struggle that always goes on between the individual and the community. It is when one considers the difficulty of writing honest unbiased criticism in a time like ours that one begins to grasp the nature of the threat that hangs over the whole of literature in the coming age.

We live in an age which the autonomous individual is ceasing to exist — or perhaps one ought to say, in which the individual is ceasing to have the illusion of being autonomous. Now, in all that we say about literature, and (above all) in all that we say about criticism, we instinctively take the autonomous individual for granted. The whole of modern European literature — I am speaking of the literature of the past four hundred years — is built on the concept of intellectual honesty, or, if you like to put it that way, on Shakespeare’s maxim, ‘To thine own self be true’. The first thing that we ask of a writer is that he shall not tell lies, that he shall say what he really thinks, what he really feels. The worst thing we can say about a work of art is that it is insincere. And this is even truer of criticism than of creative literature, in which a certain amount of posing and mannerism, and even a certain amount of downright humbug, doesn’t matter, so long as the writer is fundamentally sincere. Modern literature is essentially an individual thing. It is either the truthful expression of what one man thinks and feels, or it is nothing.

As I say, we take this notion for granted, and yet as soon as one puts it into words one realizes how literature is menaced. For this is the age of the totalitarian state, which does not and probably cannot allow the individual any freedom what ever. When one mentions totalitarianism one thinks immediately of Germany, Russia, Italy, but I think one must face the risk that this phenomenon is going to be world-wide. It is obvious that the period of free capitalism is coming to an end and that one country after another is adopting a centralized economy that one can call Socialism or state capitalism according as one prefers. With that the economic liberty of the individual, and to a great extent his liberty to do what he likes, to choose his own work, to move to and fro across the surface of the earth, comes to an end. Now, till recently the implications of this were not foreseen. It was never fully realized that the disappearance of economic liberty would have any effect on intellectual liberty. Socialism was usually thought of as a sort of moralized liberalism. The state would take charge of your economic life and set you free from the fear of poverty, unemployment and so forth, but it would have no need to interfere with your private intellectual life. Art could flourish just as it had done in the liberal-capitalist age, only a little more so, because the artist would not any longer be under economic compulsions.

Now, on the existing evidence, one must admit that these ideas have been falsified. Totalitarianism has abolished freedom of thought to an extent unheard of in any previous age. And it is important to realize that its control of thought is not only negative, but positive. It not only forbids you to express — even to think — certain thoughts, but it dictates what you shall think, it creates an ideology for you, it tries to govern your emotional life as well as setting up a code of conduct. And as far as possible it isolates you from the outside world, it shuts you up in an artificial universe in which you have no standards of comparison. The totalitarian state tries, at any rate, to control the thoughts and emotions of its subjects at least as completely as it controls their actions.

The question that is important for us is: can literature survive in such an atmosphere? I think one must answer shortly that it cannot. If totalitarianism becomes world-wide and permanent, what we have known as literature must come to an end. And it will not do — as may appear plausible at first — to say that what will come to an end is merely the literature of post-Renaissance Europe.

There are several vital differences between totalitarianism and all the orthodoxies of the past, either in Europe or in the East. The most important is that the orthodoxies of the past did not change, or at least did not change rapidly. In medieval Europe the Church dictated what you should believe, but at least it allowed you to retain the same beliefs from birth to death. It did not tell you to believe one thing on Monday and another on Tuesday. And the same is more or less true of any orthodox Christian, Hindu, Buddhist or Muslim today. In a sense his thoughts are circumscribed, but he passed his whole life within the same framework of thought. His emotions are not tampered with.

Now, with totalitarianism, exactly the opposite is true. The peculiarity of the totalitarian state is that though it controls thought, it does not fix it. It sets up unquestionable dogmas, and it alters them from day to day. It needs the dogmas, because it needs absolute obedience from its subjects, but cannot avoid the changes, which are dictated by the needs of power politics. It declared itself infallible, and at the same time it attacks the very concept of objective truth. To take a crude, obvious example, every German up to September 1939 had to regard Russian Bolshevism with horror and aversion, and since September 1939 he had to regard it with admiration and affection. If Russia and Germany go to war, as they may well do within the next few years, another equally violent change will have to take place. The German’s emotional life, his loves and hatreds, are expected, when necessary, to reverse themselves overnight. I hardly need to point out the effect of this kind of thing upon literature. For writing is largely a matter of feeling, which cannot always be controlled from outside. It is easy to pay lip-service to the orthodoxy of the moment, but writing of any consequence can only be produced when a man feels the truth of what he is saying; without that, the creative impulse is lacking. All the evidence we have suggests that the sudden emotional changes which totalitarianism demands of its followers are psychologically impossible. And that is the chief reason why I suggest that if totalitarianism triumphs throughout the world, literature, as we have known it, is at an end. And, in fact, totalitarianism does seem to have had that effect so far. In Italy literature has been crippled, and in Germany it seems almost to have ceased. The most characteristic activity of the Nazis is burning books. And even in Russia the literary renaissance we once expected has not happened, and the most promising Russian writers show a marked tendency to commit suicide or disappear into prison.

I said earlier that liberal capitalism is obviously coming to an end, and therefore I may have seemed to suggest that freedom of thought is also inevitably doomed. But I do not believe this to be so, and I will simply say in conclusion that I believe the hope of literature’s survival lies in those countries in which liberalism has struck its deepest roots, the non-military countries, western Europe and the Americas, India and China. I believe — it may be no more than a pious hope — that though a collectivized economy is bound to come, those countries will know how to evolve a form of Socialism which is not totalitarian, in which freedom of thought can survive the disappearance of economic individualism. That, at any rate, is the only hope to which anyone who cares for literature can cling. Whoever feels the value of literature, whoever sees the central part it plays in the development of human history, must also see the life and death necessity of resisting totalitarianism, whether it is imposed on us from without or from within.

 

 

 

 

 

 

 

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Paulo de Toledo é mestre e doutor em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP. Poeta, publicou os seguintes livros: Torrão e outros poemas (Ed. Patuá, 2018), Concreróticos e Outros Versos (Dulcinéia Catadora, 2012), A Rubrica do Inventor (Ed. Multifoco, RJ, 2011), Hi-Kretos e Outras Abstrações (Sereia Ca(n)tadora, 2011) e 51 Mendicantos (Ed. Éblis, 2007; Ed. Amotape, 2013). Participou também dos livros Musa fugidia (Ed. Moinhos, 2017), VAIEVEM (Binóculo Editora, 2011) e LulaLivre*LulaLivro (Fundação Perseu Abramo, 2018). Colaborou com poemas, traduções, contos e ensaios para: Revista Babel, Meteöro, Cult, Revista Ciência & Cultura – SBPC, Coyote, Artéria, Revista Opiniães, Musa Rara, InComunidade, Correio das Artes, Suplemento Cultural de Santa Catarina, entre outros. E-mail: paulodtoledo@uol.com.br




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