Sobre a queda de uma pétala

Sobre a queda de uma pétala (Porto Alegre, Bestiário, 2025) é a estreia em livro da poesia de Adriano Wintter, até aqui publicada em outros veículos. É, de fato, um livro de poesia: seus textos são poemas; é um poema-livro. Isso o torna um caso raríssimo na paisagem prosaica da poesia atual. E cria uma grande e paradoxal dificuldade.
Como resenhar, hoje, um livro de poesia? Ora, basta escrever sobre o livro. Mas, então, sobre o que se estará escrevendo? A maioria das pessoas não tem ideia do que seja um livro de poesia. Não por não saberem o que é um livro, mas por não saberem o que é poesia.
Isso exige uma demonstração. Pergunte-se a qualquer um, poetas inclusos, o que é poesia. As respostas serão um festival de besteiras bem intencionadas. Paulo Leminski: “inverno / primavera / poeta / é quem se considera”. Poesia, o que eu assim considero. É subjetivo. Nada tem a ver com qualquer produção poética. É a única atividade humana inteiramente subjetiva: “Sou filósofo porque assim me considero”. A história dessa bobagem é longa e complexa. Nasce com Aristóteles, na sua Poética. Nela ele analisa a poesia épica e a poesia trágica (dramática), mas não a poesia lírica. Analisava, mas isso não é (mais) considerado: o livro da Lírica foi perdido. Cristalizou-se, na tradição ocidental, a ideia de que a lírica (na prática, a poesia) é indescritível. Se nem Aristóteles… Isso seria reiterado pelo Romantismo, subjetivista e antirracionalista. Nos primórdios da Modernidade, em que tudo seria descrito e analisado para ser compreendido, a poesia, ou melhor, a Poesia, foi alçada a derradeiro bastião da desrazão e da indescritibilidade. A voz ancestral, originária, “pura”, sagrada, do Subjetivo. Poesia é o que o Subjetivo Sagrado assim considera: um fragmento de prosa porosa, um pôr do sol “poético” (ou “lírico”)… Tudo. Nada.
A resenha de A queda de uma pétala se seguirá, aqui, à síntese de alguma episteme poética. Não é habitual, mas é necessário. Não se pode falar em finlandês com quem não entende finlandês sem um dicionário.
A poesia é uma linguagem verbal. O estado natural (sic) da linguagem verbal é oral, temporal, linear e unidirecional. Na fala, tudo segue. A prosa (senso lato) é a codificação escrita da linguagem verbal. E mimetiza sua condição linear e unidirecional. A linguagem poética é um caso particular de linguagem verbal em que a linearidade e a unidirecionalidade são sub/vertidas.
A linguagem poética se realiza, ao contrário da fala e de sua mimese, a prosa, por unidades discretas (não lineares) recorrentes (bidirecionais). Em sua acepção ampla e amplamente significante, verso é o nome geral das unidades estruturais e estruturantes da linguagem poética: do latim versus, o que retorna. A poesia (nascida de formas e fórmulas mnemônicas) é feita de voltas, de retornos. Portanto, de discrições. Todas a figuras de linguagem poética, formais, semânticas e estruturais (rimas, aliterações, paronomásias, polissemias, ritmos, cortes, estrofes) são figuras de discrição e de retorno. A prosa é sem medida e desmedida. A poesia é medida e comedida.
A linguagem poética é um caso particular da linguagem verbal. A poesia é um caso particular da linguagem poética. Sendo uma linguagem, ela é e pode ser usada em vários contextos para vários fins: publicidade (slogans), provérbios etc. A poesia é o uso estético da linguagem poética. Ou seja, como um fim em si mesmo, com todas as consequências formais e semânticas de tal autonomia, que a tornam a forma mais potente de linguagem verbal. E a mais exigente. Por isso, nada é mais fácil (e irrelevante) do que fazer um poema fácil (a prosa ruim dá algum trabalho braçal). Daí a necessidade ansiosa dos inexigentes de mantê-la como o derradeiro bastião da facilidade subjetiva.
No “Prefácio” a Sobre a queda de uma pétala, Mário Henrique Domingues faz uma análise meticulosa da densa tessitura morfossemantissintática de sua linguagem. Não me cabe repeti-lo nem caberia repeti-la aqui. Operarei por metonímia: a descrição sintética dos elementos principais.
Há no livro uma forma predominante: a décima rimada. Trata-se de uma estrofe de dez versos, como vários esquemas rímicos possíveis. É habitual na poesia de cordel. Aqui, há uma variação curta, acelerada (em versos trissilábicos) e adensada para muito além das rimas. Se a linguagem poética é feita de elementos recursivos discretos, Sobre a queda de uma pétala é sobre a linguagem poética.
Não se trata da velha poesia metalinguística, mas de uma revitalização sistemática da metáfora. O livro deriva da queda de uma pétala uma ética, uma estética e uma analítica.
Art. 3, § 3º (p. 45):
pois a pétala
quando investe
sobre a terra
faz o inverso
de sua queda:
ela eleva
E essa poesia diz/faz o inverso de uma lírica “lírica”, ingênua: a pétala não cai nem é passiva, investe contra, e inverte a queda: eleva. O quê? Tudo. Como? Instaurando a beleza: “ela eleva / tudo ao belo”, segue o poema. É uma equação semântica complexa: a queda da pétala é bela; o belo eleva; a elevação é bela; a queda da pétala é beleza e elevação; a queda eleva. Assim como a linguagem poética leva tudo ao retorno. Leva e retorna: significantes, significados, ritmos. “Pois a PÉTaLA / QUanDO INVÉSTE / SOBrE a TÉrrA / faz o INVÉrSO / de sua QUÉDa: / ELA ELÉVA / tuDO ao BÉlo”. Neste poema como neste livro, a queda de uma pétala instaura o belo e a ameaça passageira do perene, pois é recorrente enquanto se realiza (neste caso, por 175 páginas).
.
.
Luis Dolhnikoff publicou os livros de poemas Pãnico (apresentação Paulo Leminski; São Paulo, Expressão, 1986), Impressões digitais (São Paulo, Olavobrás, 1990), Lodo (São Paulo, Ateliê, 2009), As rugosidades do caos (apresentação Aurora Bernardini; São Paulo, Quatro Cantos, 2015 – finalista do Prêmio Jabuti 2016), Impressões do pântano (São Paulo, Quatro Cantos, 2023) e O fim do mundo ocidental (apresentação Alcir Pécora; São Paulo, Quatro Cantos, 2026). Traduziu Arquíloco (Fragmentos; São Paulo, Expressão, 1987, ed. bilíngue), James Joyce (Poemas: Chamber music; São Paulo, Olavobrás, 1992, ed. bilíngue), Allen Ginsberg (Uivo; São Paulo, Globo, 2012, texto integral) e A Torá (São Paulo, União do Judaísmo Reformista, 2021, texto integral). É autor de A razão da poesia, ensaio de síntese analítica da linguagem poética de Aristóteles ao século XX (não em termos históricos, mas funcionais- estruturais): in Eutomia – revista de literatura de linguística, UFPE, 2012 [<https://periodicos.ufpe.br/revistas/EUTOMIA/article/view/883/665>]). Entre 1990 e 1994, co-organizou, ao lado de Haroldo de Campos, o Bloomsday SP, homenagem anual a James Joyce. Organizou e apresentou Poesia Completa de Orides Fontela (São Paulo, Hedra, 2015), autora homenageada da FLIP 2026.




































Comente o texto