Epifania na laje

Entre tambores nagôs, haicais urbanos e epifanias jazzísticas, o poeta transforma a laje em miradouro cósmico e político.
.
Satori na Laje, de Edson Cruz (EditoRia, 2025), junta no título duas palavras que raramente se encontram. Satori é o nome que o budismo zen dá ao despertar súbito. Laje é a cobertura de concreto onde, nas periferias brasileiras, se estende roupa, se faz churrasco ao ritmo do samba ou do funk ou do hip hop ou… e se fica olhando o céu no fim do dia. O livro cabe inteiro nesse encontro: a iluminação não acontece num mosteiro, acontece no próprio habitat, no local onde se vive e se morre, com o barulho da rua e das motos subindo pelas paredes.
O volume se divide em cinco partes de tons bem diferentes. Budanagô, cujo título já funde buda e nagô, recolhe um canto ligado à diáspora negra. Lajeando estrelas se volta para o próprio ofício do poema; Seres que dançam se abre às vozes indígenas e Polaroides reúne retratos de gente próxima, afetiva e intelectualmente. O livro termina com os haicais urbanos de Sabor de saquê. A variação é grande, mas não se trata de uma coletânea dispersa. O fio que liga as partes está no subtítulo, na palavra orikais, que cruza o oriki, poema de louvor iorubá, com o haicai japonês. O neologismo resume o método do livro, que deixa tradições distantes se contaminarem, à maneira antropofágica, sem pedir licença a nenhuma delas.
Essa contaminação aparece também na escala do verso. Edson Cruz põe o silêncio do haicai ao lado do tambor nagô e alterna poemas de poucas palavras com outros que falam alto, em tom de denúncia. Num deles, uma criança se reflete no espelho com sangue na barba. Noutro, um ipê amarelo floresce de repente, como uma falha na Matriz. Noutro ainda, os malês continuam lutando nas ladeiras de Salvador, quase dois séculos depois da revolta de 1835. São imagens que chegam com a rapidez de um clarão e deixam marcas.
Por baixo de tudo soa uma música. O livro tem algo de improviso, do jazz e do samba. Os músicos que passam por ele entram menos como homenageados do que como parceiros de roda: Miles Davis (uma pepita escrita em inglês), Coltrane, Cartola, Clementina de Jesus, Luis Vagner, Mussum, Clara Nunes, Tom Zé. É com eles que o poeta aprendeu a síncope, o tempo deslocado que dá ao verso o seu balanço.
Isso ajuda a entender por que o satori do título tem peso político. No budismo zen, a iluminação costuma vir associada ao recolhimento, ao templo, à montanha. Aqui ela chega no meio da cidade, entre becos, metrôs atrasados, velórios de bairro e injustiças que ninguém consegue ignorar. O clarão não traz paz, mas transposições, pequenas epifanias. Deixa o poeta, e o leitor, mais inquietos do que antes.
O risco do livro é a dispersão. São muitas vozes, formas e registros, e nem sempre se sabe em que chão se vai pisar na página seguinte. Mas é daí também que vem a força do conjunto. Edson Cruz recusa o tom único e aposta na polifonia, e o excesso acaba sendo a maneira mais honesta de dar conta de um país que também é excessivo e contraditório, quase barroco.
Satori na laje propõe uma epifania à altura do nosso tempo, feita na mistura, em que o terreiro, a aldeia, o budismo, os orixás, o popular e o erudito dividem o mesmo pedaço de concreto, o mesmo chão. É um livro que nos desperta num sobressalto e, em vez de pedir silêncio, convida-nos a subir na laje.
.

Indran Amirthanayagam (indranmx.substack.com) é poeta, músico, diplomata, editor e tradutor norte-americano de origem cingalesa. Editou seus livros de poemas pela Beltway Editions (www.beltwayeditions.com). Edita a Beltway Poetry Quarterly (www.beltwaypoetry.com). Mantém o canal “The Poetry Channel” no YouTube (https://youtube.com/user/indranam). É um dos dirigentes da DC-ALT, associação de tradutores literários. Bacharel em Literatura Inglesa pela Haverford College e mestre em jornalismo pela Universidade de Columbia. Em seu blogue (http://indranamirthanayagam.blogspot.com) escreve em inglês, espanhol, francês, português e crioulo haitiano. Publicou 28 coletâneas de poesia e traduções, incluindo El bosque de deleites fratricidas (R.I.L. Editores, 2025), Isleño (R.I.L. Editores, 2021), The Runner’s Almanac (Spuyten Duyvil, 2024), Seer (Hanging Loose Press, 2024), Ten Thousand Steps Against the Tyrant (BroadstoneBooks.com, 2022), Blue Window/Ventana Azul (Lavender Ink/Diálogos Books, 2021), The Migrant States (Hanging Loose Press, 2020), Sur l’île nostalgique (L’Harmattan, 2020) e Lírica a tiempo (Mesa Redonda, Lima, 2020). Outros livros de poesia incluem Il n’est de solitude que l’île lointaine (Legs Editions, Haiti, 2017), The Elephants of Reckoning (Hanging Loose Press, NY, 1993), que ganhou o Prêmio Paterson de 1994 nos Estados Unidos, Uncivil War (Mawenzi House, Canadá, 2013), Sin adorno: lírica para tiempos neobarrocos (Universidad Autónoma de Nuevo Leon, 2013), Ventana azul (El Tapiz del Unicornio, México, 2016), Coconuts on Mars (Paperwall Publishers, Mumbai, 2019), En busca de posada (Apogeo, Lima, 2019) e Paolo 9 (Manofalsa, Lima, 2019) e, em português, Música Subterrânea (Kotter Editorial, 2024).
Email: indranmx@gmail.com




































Comente o texto