Palavras acesas pela delicadeza


 

Nas histórias de A. A. Milne, o ursinho Pooh está sempre cercado de amigos — é com eles que gosta de comer mel, e é para eles e a partir das histórias vividas com eles que o urso faz as suas canções. Esse mesmo ethos atravessa o poeta Leonardo Gandolfi, que em livros como Robinson Crusoé e seus amigos (2021) traz para a sua escrita figuras queridas, vivas ou mortas. E mais uma vez o poeta não vem sozinho. Vocês verão que o emocionante poema que dá título a este novo livro é escrito para e com a sua filha Rosa, enquanto leem juntos as histórias de Pooh e seus amigos.

Só que em Pote de mel e outros poemas essa força de partilha se intensifica: é que o poeta convoca muitas vozes que falam através da sua própria. Ou será que é Leonardo Gandolfi quem fala com a voz dos outros? Essa situação cinde a leitura em duas, criando duas vozes e duas temporalidades para o poema e para a experiência. Como em “Cordas”, que traz diversos fragmentos com nomes de músicos como subtítulos. Num deles, “Paulinho da Viola”, lemos: “Este lápis escreve/ ao mesmo tempo/ em dois passados/ um que não terminou/ e outro que ainda/ está para começar”. Quem fala nesse poema, Leonardo ou Paulinho?

O mais desconcertante nisso tudo é a simplicidade que a sua escrita alcança. É famosa a lenda do pintor chinês que contemplou a sua própria pintura por tanto tempo que nela se dissolveu. Poucas histórias têm esse dom de serem inocência e enigma ao mesmo tempo. As fábulas fazem isso. Com poesia é mais difícil. Mas Leonardo Gandolfi faz parecer fácil. Como no poema “Para Max Martins”: “Todas/ as palavras/ da língua/ estão acesas/ ao mesmo tempo/ sopro uma a uma/ até que elas/ se apaguem/ mas sempre/ sobram algumas”. Muitos poetas aspiram a esse estado de espírito, em que a simples percepção do mundo parece mobilizar a linguagem e dar vida, como que por mágica, a alguma coisa que brilha sozinha.

Mas nem tudo aqui é como mel, e não é só de nascimentos que este livro se faz. Estas palavras estão cheias de feridas. A morte, antiga companheira de viagem dos poemas de Leonardo Gandolfi, também está presente nestes versos. Isso torna as coisas mais complexas, ainda que eu concorde com o poema “Mãos”, que diz que a dor e a beleza são simples (“quando você/ soltou minha mão/ deixou nela/ a mesma marca/ que a água deixa na pedra”).

Em Pote de mel e outros poemas dor e beleza são impressas em uma mesma “pincelada”. E o brilho dessas palavras acontece à sombra de um desamparo incomensurável. Talvez por isso trazem também um desejo urgente daquelas vozes que o livro encarna. Desse modo, o poeta mistura duas pontas da existência, produzindo um só afeto, dissolvendo a vida e a morte uma na outra. E, mesmo assim, saímos com a sensação de que um desses sabores prevalece, pois, como diz o poeta, “enquanto isso/ as crianças correm/ quebram a porcelana/ dos outros/ fecham as feridas/ de velhos corações”.

Rafael Zacca

 

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Alguns poemas do livro:

 

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Bares

Já era tarde
quando
a grande porta de metal
baixou
mas nossos corações
resistiram
abertos
vagando pela noite
em busca
de outros corações e portas
prestes a fechar 

 

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Fogo

Os velhos mestres
sabem fazer fogo
com as palavras
copio letra a letra
seus textos
só para assistir ao pacto
que fizeram com a beleza

Quase nunca se enganam
quanto à dor
os velhos mestres
eu olho o fogo
e o fogo
me olha de volta
aqui começa o incêndio

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Última vez

A última vez
que te vi
não sabia
que seria a última
só suspeitava
no fundo
acho justo
não sabermos
a última vez
que vemos alguém
ainda mais alguém
que amamos
não sei o que é pior
prolongar as despedidas
ou não se despedir

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Folhas secas

Me reparto
em dezenas de pedaços
até que fiquem do tamanho
das folhas secas
que vão de um lado
para outro no quintal
agora flutuamos
agora batemos contra o muro
agora flutuamos de novo
somos um enxame
é a nossa dança

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Programe-se para o lançamento:
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Mais nformações sobre o livro, aqui.
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Sobre o autor:

Leonardo Gandolfi nasceu em 1981, no Rio de Janeiro, e desde 2013 mora em São Paulo, onde é professor de literatura no Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e no Programa de Pós-Graduação em Letras da mesma universidade. Publicou os livros de poemas No entanto d’água (7Letras, 2006), A morte de Tony Bennett (Lumme Editor, 2010), Escala Richter (7Letras, 2015) e Robinson Crusoé e seus amigos (Editora 34, 2021). Teve editado na Argentina La muerte de Tony Bennett (tradução de Paloma Vidal, Ediciones Lux, 2021). Foi o responsável pela organização e o posfácio da antologia O coração pronto para o roubo: poemas escolhidos (Editora 34, 2018), de Manuel António Pina, e escreveu o livro sobre esse mesmo poeta para a coleção Ciranda da Poesia (Eduerj, 2020). Organizou, com Claudio Leal, Cancioneiro geral (Círculo de Poemas, 2024), reunião de livros e canções de José Carlos Capinan, e, com Jhenifer Silva, Faça um samba enquanto o bicho não vem: poemas para Sérgio Sampaio (Telaranha Edições, 2024), antologia de poesia contemporânea em homenagem ao músico e compositor capixaba. Ao lado de Marília Garcia, idealizou e coordenou a Luna Parque Edições. Foi também um dos criadores da coleção de livros e plaquetes Círculo de Poemas, que em seus dois primeiros anos (2022-2023) foi um projeto conjunto das editoras Luna Parque e Fósforo.




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