Imagens do mundo flutuante
(SETE POEMAS DE CLAUDIO DANIEL)

KITAGAWA UTTAMARO
(1753-1806)
moça linda em vestes
verde-jade
verde-água
verde-mel;
lábios rubros rubiáceos
como um sol
que se enamora
por outro sol.
aroma azul-da-prússia
suscetível de encontro
de pele em pele
desejada;
na casa japonesa
o dourado mistura-se
ao verde-azul
verde-malaquita
verde-turmalina
das escamas dos peixes.
ela passeia entre pinheiros
de galhos retorcidos
e seus olhos refletem
um invisível arco-íris;
ela move os olhos-
de-pássaro-e-gato
furtiva, sub-reptícia
como personagem de teatro nô
e meu coração palpita
em rima com saliva
cobiça, atiça, treliça
delícia, insubmissa.
vejo as katanás
dos velhos samurais;
vejo e não vejo pois só desejo
habitar a sua boca, sua voz.
YOSHIDA HIROSHI
(1876-1950)
Luminárias vermelhas
na entrada da casa de chá.
Dentro, lutadores de sumô
pescadores, gueixas
jogadores, agiotas.
Quem sabe um samurai
sem mestre
troque a espada
por comida e saquê.
Lá fora, mulheres vêm e vão pela rua.
Na casa das luminárias vermelhas
estão aqueles
que se esqueceram de Buda.
Estão aqueles
que foram vendidos pelos pais.
Estão aqueles
que apostarão tudo nos dados:
as poucas moedas
o futuro, a honra.
E tudo se desmancha numa taça de saquê.
Estas são imagens do mundo flutuante:
tudo que dói, tudo que grita
tudo que chora, goza por instantes
e morre sem saber o que fez em vida.
UTAGAWA HIROSHIGE
(1797-1858)
Noite branca
folhas brancas
galhos brancos:
chapéu branco
do viajante
que percorre
a estrada fria
até a aldeia
de telhados
brancos.
Dois amantes
se encontram
frente às águas
do lago azul.
Na janela da casa
gato observa
o monte Fuji.
Com chapéus de palha,
camponeses
carregam víveres
em cestos, no cavalo.
O galho
de flores brancas
ofuscou a lua.
Cinco barcos, em fileira
contornam a ilha
de árvores altas.
Ponte coberta de neve:
embaixo, os remadores
em cima, namorados
soldados, comerciantes.
Noite escura:
moça de quimono
azul
percorre a rua
com uma lanterna.
Pavão desafia a lua:
qual o mais belo?
Tarde de sol:
mulheres, crianças
e velhos passeiam
homens conversam
na casa de chá.
SUZUKI HARUNOBU
(1725-1770)
Casal caminha em noite de inverno.
Galhos brancos de árvores
cobertas de neve.
Ela veste quimono branco.
Ele veste quimono negro.
O abraço dos amantes os aquece.
Sombrinha observa o diálogo das pálpebras.
Duas jovens vestidas com quimonos marrons
desdobram o longo pergaminho:
será a mensagem de um namorado
do pai que foi para a batalha de Sekigahara
ou talvez um enigmático sutra budista
da escola do Sexto Patriarca?
Mãe e filha conversam num cômodo da casa
ao fundo galhos de uma árvore
e um quadro com montanhas, falésias, um rio.
Sem pudor algum, homem e mulher deitados
fazem amor, já seminus, na sala de estudos.
KATSUSHIKA HOKUSAI
(1760-1849)
Árvore de galhos tortos
cegonhas observam
o simples pôr-
do-
sol.
Mulher
montada
na carpa amarela
lê a mensagem
do amigo
distante.
Desabam as águas
da cachoeira
Amida
entre as rochas
do vale:
casal toma chá
sem dar a mínima
atenção.
Sob a lua cheia
samurai enlouquecido
golpeia as ondas
do mar.
Aranha gigante
surge de imprevisto:
alguém saca a espada.
A Senhora Morte
abraça a moça
de quimono negro-
dourado.
Outra jovem, agora nua
pele coberta de tatuagens
penteia sentada
os longos cabelos.
HASUI KAWASE
(1883-1957)
Verde-azulácea
paisagem
de árvores inclinadas
rio de brancas nuvens refletidas
e um barco distante
(onde talvez uma garota
faça amor com o barqueiro).
Será talvez a mesma moça
que percorre a rua noturna
de tamancos e guarda-chuva?
Ou será a mulher de quimono azul
que subiu até o templo
para rezar ao Buda Amida?
(Sua figura quase desaparece
entre o vermelho das colunas
e os infindáveis degraus de pedra).
Será o grande amor do artista
ou talvez sua irmã, sua filha
alguém que ele viu por acaso
numa rua agitada de Kyoto
num dia qualquer da semana?
Talvez nem isso: apenas
uma mulher pensada, pintada
pelos contornos. Não saberemos jamais.
HISHIKAWA MORONOBU
(1618-1694)
Amantes abraçados
ao fundo, paisagem
pintada, janela com vista
para as cerejeiras;
olhos que se desnudam.
No ensaio da peça kabuki
atores vestem seus trajes:
samurai, sacerdote xintoísta
servo, cortesã, musicista –
todos no mesmo camarim.
Após o jogo de xadrez
todas as peças são guardadas
na mesma caixa, com o tabuleiro.
A dama de vermelho, corpo inclinado
segura um leque e sorri.
Terá encontrado o namorado?
Bebeu taças de saquê?
A jovem de verde, longos cabelos
recolhe uma perna, estica a outra
e lê com vivo interesse um livro:
romance erótico, diário de viagem,
novela de terror? Ou talvez faça pose
enquanto seu amigo não vem?
.
[Todos os poemas foram escritos em 2026]
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Claudio Daniel é poeta, romancista, crítico literário e professor de literatura. Nasceu em 1962, na cidade de São Paulo (SP). Cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). Realizou o pós-doutoramento em Teoria Literária pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi diretor adjunto da Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, curador de Literatura no Centro Cultural São Paulo e colunista da revista CULT. Foi editor, por vinte anos, da revista eletrônica Zunái. Atualmente, ministra aulas online de criação literária no Laboratório de Criação Poética, é editor do Banquete, Jornal de Resenhas e Crítica Literária e é um dos coordenadores do programa Poesia na veia, transmitido pelo Youtube. Publicou diversos livros de poesia, ensaio e ficção, entre eles Cadernos bestiais: breviário da tragédia brasileira, Portão 7, Marabô Obatalá, Sete olhos & outros poemas e Dialeto açafrão (sob a lua de Gaza), todos de poesia, o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo e os romances Mojubá e A casa das encantadas.




































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