A geometria do pássaro e da flor

Jeannette Priolli, artista visual nascida na cidade de São Paulo, pertence à chamada Geração 80 e é considerada uma das expoentes, no Brasil, da chamada arte neo-geo (neo-geometric conceptualism), movimento internacional de vanguarda que deriva da arte abstrata, da pop art e da arte conceitual.
Podemos verificar, no caso da artista brasileira, duas vertentes criativas, ou, para usarmos uma expressão criada pelo poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, “duas águas”: a primeira, geométrica, deriva do construtivismo russo, e privilegia a linha, o quadrado, o retângulo, o triângulo, articulados em composições insólitas, que recordam por vezes labirintos ou letras de um alfabeto mítico imaginado, traçados em cores fortes, como o amarelo e o escuro; a segunda é figurativa, ou neofigurativa, e traz imagens concisas, quase elípticas, de pássaros, flores e outros elementos da natureza, reimaginados e recriados pela artista, com extrema delicadeza e precisão.

Se na “primeira água” há o primado da razão, da objetividade, da clareza e talvez mesmo de uma certa funcionalidade (para usarmos um termo caro a El Lissíttzy, Rodchenko e seus companheiros), em formas puras, simples e racionais, sem excessos decorativos, na segunda temos um mergulho na subjetividade, quem sabe até a representação pictórica de sonhos, por seu caráter mais fluido, espontâneo e não-linear.

Ou, se formos utilizar uma nomenclatura da metafísica taoísta chinesa, a “primeira água” é Yang, diurna, masculina, sólida, e a “segunda água”, noturna, feminina, líquida, opostos complementares que, em sua interação criativa, são responsáveis pela criação de todas as “dez mil coisas”, segundo Lao Zi. No diagrama do Tai Chi, porém, vemos que dentro do campo branco Yang temos a presença de Yin, e dentro do campo preto de Yin, temos a presença de Yang.

O mesmo podemos constatar quando observamos com mais atenção as pinturas e desenhos de Jeannette Priolli: em suas composições mais geométricas e abstratas, o elemento subjetivo não está ausente: no trabalho em que vemos uma coluna preta em um campo amarelo, por exemplo, os princípios da economia pictórica e do traçado mínimo de linhas e formas estão presentes, assim como certa matemática conceitual na definição da coluna pela justaposição de um quadrado e de linhas paralelas acima e abaixo dessa figura colocada no centro da tela.

Porém, a subjetividade está ali, nesse enigma plástico que convida o espectador à sua decifração – ou interpretação, para citarmos uma palavra preferida por Umberto Eco. O quadro, ele próprio uma “obra aberta”, permite assim um número incalculável de leituras, sendo que nenhuma será a única ou a definitiva. Já na “segunda água”, que se assume mais subjetiva, os elementos racionais estão todos ali, no traçado conciso das formas, na escolha e combinação das cores, na distribuição dos elementos figurativos da tela. Nada é casual, fortuito, puramente instintivo, o que nos faz lembrar do figurativismo geométrico de um Maliévitch, por exemplo.

Jeannette Priolli é uma artista que faz de suas telas não apenas exercícios técnicos ou expressões intimistas, mas também um diálogo criativo com a história da arte, com a história, com a mitologia, com a psicologia e consigo mesma. É uma esfinge que vale a pena decifrar, ainda que, na ausência de certezas estáveis, qualquer precária aventura interpretativa seja uma recriação da obra pelo espectador.

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Claudio Daniel, pseudônimo de Claudio Alexandre de Barros Teixeira, é poeta, tradutor e ensaísta. Nasceu em 1962, na cidade de São Paulo (SP), onde se formou em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP), onde defendeu a tese A recepção da poesia japonesa em Portugal. Realizou o pós-doutoramento em Teoria Literária pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), durante o qual realizou pesquisa sobre o tema Caligrafia e visualidade na poesia experimental portuguesa. Foi diretor adjunto da Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em 2007, curador de Literatura no Centro Cultural São Paulo entre os anos de 2010 e 2014 e colunista da revista CULT. Editou, ao longo de vinte anos, a Zunái, revista de poesia & debates. Atualmente, é editor do Banquete, jornal de resenhas e crítica literária e, ao lado de Antônio Vicente Seraphim Pietroforte do programa Poesia na veia, transmitido no YouTube.




































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