A mulher relógio

……………………..“A mulher com relógio”, Picasso
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— Vou tomar banho às quinze para as sete. Saio para as compras às oito e sirvo o almoço às doze e trinta — informava a rotina do dia seguinte.
Cumpriria rigorosamente, nem cinco minutos antes, nem depois.
Assim vivia a mulher relógio, programando cada hora do seu dia e comunicando a quem estivesse a seu lado. Nesse caso, a mim, sua prima e hóspede eventual, que ora me divertia com aquela mania, ora me exasperava.
— Posso ajudar cortando algum legume ou o alho?
— Não precisa. São pequenas compras, voltarei rápido.
Saiu às 8h, conforme anunciado. Esperei ouvir a porta bater para ir ao banheiro.
Fui para o computador escrever, aproveitando o tempo vazio. Às 11h, não havia chegado. Resolvi preparar o almoço, conforme o cardápio anunciado na véspera.
Às 11h30, comecei a imaginar se poderia ter acontecido algum acidente.
Às 12h, o almoço estava pronto.
Às 12h20, chegou sem espanto ou agradecimento. Foi o tempo de guardar as compras e sentar-se à mesa. Olhou para a mesa posta.
— São doze e trinta.
Havia um motivo para tantos avisos, pensei. Pela primeira vez, percebi que os horários não eram mais dela. Eram meus.
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Heloisa Azevedo fez carreira em política urbana e regional e planejamento urbano, em Brasília, para onde se mudou em 1982, atuando no governo local e federal. Tem mestrado em Planejamento Urbano – UFF e doutorado em Arquitetura e Urbanismo – USP. Colaborou como professora palestrante em conferências e minicursos na área de planejamento urbano e foi professora da UNIPLAC-DF. Desde 2014 tem se dedicado à literatura em clubes de leitura. Em 2023 mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro e dedica-se à escrita de contos, ensaios e crônicas. E-mail: heloisa.azevedo@hotmail.com




































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