Quando a arte flerta com o abismo

Há romances que se aproximam do leitor com cautela; O Bestiário, estreia de Lucas Villa na prosa longa, faz exatamente o contrário. Publicado pela Patuá em 2025, o livro avança como uma força contínua, recusando o tom moderado e apostando desde as primeiras páginas numa intensidade sem amortecedores. Villa — poeta, filósofo e advogado — constrói aqui uma narrativa que opera no excesso: de ideias, de imagens, de sensações. O resultado é um romance que se lê como uma tragédia contemporânea atravessada por horror psicológico, reflexão filosófica e uma estranha e sombria beleza. Mais do que contar uma história, O Bestiário propõe uma experiência: entrar num labirinto onde arte, desejo e finitude passam a compartilhar o mesmo espaço.
Antes de mergulharmos no livro, é necessário notar que o projeto de Villa, já a partir do título, dialoga com uma tradição literária que vem da Idade Média. Os bestiários, derivados sobretudo do Physiologus (texto greco-cristão tardio), eram compêndios de animais reais e imaginários — leões, unicórnios, basiliscos — descritos não com finalidade científica, mas alegórica e moralizante. Cada bicho encarnava uma virtude ou um vício: o leão figurava Cristo, a raposa a astúcia, o pelicano o sacrifício. A natureza era lida como um livro simbólico.
Com a modernidade, essa função pedagógico-teológica se esvazia, mas o bestiário não desaparece: ele se transforma.
Nos séculos XIX e XX, o bestiário reaparece como forma literária irônica, poética ou crítica, já sem a pretensão de catalogar o real. Passa a ser um dispositivo de estranhamento; uma maneira indireta de falar do humano; um laboratório de linguagem e imaginação.
O livro de Villa ressoa essas três possibilidades. No centro da trama estão duas figuras que parecem destinadas ao choque. Adeodato é um ex-cirurgião que, após perder a família em um acidente brutal, abandona a medicina para se dedicar à taxidermia. Seu ofício passa a ser uma tentativa desesperada de suspender o tempo, de preservar aquilo que já morreu. Ariadne, por outro lado, é uma artista plástica movida por uma ética hedonista inspirada na escola cirenaica: acredita no prazer imediato, na afirmação radical do corpo e na criação como resposta à finitude. Ele tenta eternizar a morte; ela tenta incendiar a vida. Quando esses dois universos se encontram, nasce uma aliança tão estética quanto destrutiva — uma convivência marcada por erotismo, cumplicidade criativa e uma progressiva perda de limites.
Villa organiza o romance em partes de títulos mitológicos — O Taxidermista, A Cirenaica, O Minotauro e A Sereia — que funcionam como estações de um percurso alegórico. Não se trata apenas de divisão estrutural, mas de uma cartografia emocional e filosófica. O livro começa em registros mais introspectivos, acompanhando o luto congelado de Adeodato, e vai acelerando à medida que Ariadne assume o centro da narrativa, até desembocar num território em que os personagens já não distinguem criação de profanação, arte de crime. O bestiário que dá título ao romance acompanha esse movimento: parte de animais empalhados, passa por criaturas híbridas e termina por envolver o próprio corpo humano.
Um dos traços mais marcantes de O Bestiário é sua fisicalidade. A prosa de Villa investe em descrições que convocam os sentidos: o cheiro de gordura animal, a aspereza das paredes descascadas do casarão, o peso quase palpável da música erudita que atravessa os ambientes. Mozart, Wagner, Strauss e Chopin não aparecem como referências decorativas, mas como elementos narrativos, modulando o ritmo das cenas, como se o romance obedecesse a uma lógica de partitura. Há momentos em que a leitura parece guiada por crescendos e pausas, por uma cadência que aproxima o texto de uma experiência musical.
Ariadne leva essa intensidade para o campo visual. Sua pintura mistura Botticelli, Delacroix, Dalí e Picasso em telas que parecem condensar séculos de história da arte em criaturas impossíveis. O ateliê torna-se um espaço de fabulação radical, onde a arte deixa de imitar a natureza para tentar completá-la. Essas passagens estão entre as mais inventivas do livro: nelas, Villa cria verdadeiras zoologias alternativas, taxonomias privadas em que o impulso criativo caminha lado a lado com a deformação.
No fundo, O Bestiário é um romance sobre perdas. Adeodato tenta preencher a ausência da família com corpos preservados; Ariadne busca compensar a morte do mentor amoroso, o poeta Lúcio Mello, com excesso de prazer e produção artística. Ambos são criadores, ainda que por vias opostas. O taxidermista transforma a arte numa espécie de pacto com o fim; a pintora a vive como explosão de vida, mesmo sabendo que tudo é transitório. A pergunta que atravessa o livro — se a vida é uma luta contra a morte ou uma aliança com ela — não recebe respostas conciliadoras.
Villa não esconde suas referências. Nietzsche, a filosofia antiga, reflexões sobre moral, direito e poder institucional aparecem com frequência nos diálogos e monólogos internos. Em alguns trechos, o romance se aproxima do ensaio, especialmente nas cenas envolvendo Diógenes, irmão advogado de Adeodato, personagem por meio do qual o autor constrói uma crítica mordaz ao sistema jurídico brasileiro, retratado como teatro de vaidades, cálculo político e espetáculo midiático. O julgamento do protagonista, transmitido como entretenimento público, cristaliza essa dimensão: a morte vira performance; a punição, consumo coletivo. Figuras como Deolindo, o pai empresário corrupto, ampliam esse retrato desencantado do país, onde a corrupção surge menos como exceção e mais como sintoma estrutural.
Essa ambição intelectual é ao mesmo tempo força e fragilidade. Há momentos em que o acúmulo de referências — que vão de filósofos gregos à cultura underground, passando por Shakespeare, Cioran e o metal extremo — pesa sobre a narrativa, interrompendo seu fluxo. Villa parece, por vezes, relutar em abrir mão de seu arsenal conceitual. Ainda assim, é justamente essa mistura improvável de alta erudição e cultura marginal que confere singularidade ao romance.
Outro elemento que pode dividir leitores é a intensidade constante. Sexo, morte, arte e culpa raramente aparecem em registro baixo. O livro quase não oferece zonas de silêncio. Para alguns, isso produz um efeito hipnótico; para outros, uma sensação de saturação. Mas a escolha é coerente com o projeto: O Bestiário não busca equilíbrio. Sua lógica é a do labirinto — uma vez dentro, o leitor é conduzido por corredores de beleza e horror até o encontro inevitável com o monstro, que ao final se revela inseparável do próprio sujeito.
Como estreia, o romance impressiona pela ousadia formal e pelo fôlego narrativo. Lucas Villa demonstra domínio de linguagem e uma disposição rara para enfrentar temas difíceis sem suavização. Se em certos momentos escorrega na verborragia filosófica ou na insistência do grotesco, compensa esses excessos com imagens poderosas, cenas de forte impacto e uma reflexão persistente sobre luto, criação e finitude.
Em um cenário literário frequentemente dominado por romances minimalistas e autoficções, O Bestiário escolhe outro caminho: é barroco, ambicioso e frontal. Não é uma leitura confortável — exige entrega, paciência e resistência. Ao final, permanece a pergunta que sustenta todo o livro: o que resta do humano quando a busca por sentido decide caminhar ao lado do monstro? É nesse território incômodo, entre o belo e o abjeto, entre o pensamento e a carne, que Lucas Villa encontra sua voz mais singular.
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Edson Cruz é poeta, mestrando em Escrita Criativa e editor do Musa Rara. E-mail: sonartes@gmail.com Insta: @poeticas.da.escrita




































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