Diálogo com Lucia Santaella


 

Certa vez convidei a querida Lucia Santaella para um diálogo só com poetas. Era o lançamento na Casa das Rosas do livrinho que organizamos, O que é Poesia? (editora Confraria do Vento), com depoimentos de 47 poetas. Lembro-me que o amigo e poeta Marcelo Tápia comentou: “Você sabe o que está fazendo? Trouxe a papisa da Semiótica mundial para falar”.

No palquinho da Casa estavam os poetas Affonso Romano de Sant’Anna, Carlito Azevedo, Márcio-André, Ricardo Silvestrin, Carlos Felipe Moisés, Nicolas Behr e a Lucia, sentada no meio daqueles homens escritores e criadores. Na plateia, muitos escritores e poetas. Inclusive o Marcelo Tápia, Frederico Barbosa e a esposa do Affonso Romano, Marina Colasanti.

Quando ela toma a palavra, manifesta certo constrangimento por estar no centro de poetas, uma teórica e admiradora de poesia e de vários poetas ali presentes. Uma “fêmea teórica”, como gosta de brincar sobre si.

Outra vez foi no lançamento da Revista Corsário, no Espaço O Barco. Naquela tarde havíamos conseguido algo pouco provável de acontecer novamente: reunir poetas tão díspares para dialogar – Augusto de Campos e Claudio Willer. E, novamente, ela lá no meio, entre poetas faiscantes.

Lucia é antes de tudo uma pesquisadora. E daquelas plus, mega, sênior. Defendeu sua tese de doutorado em 1973, quando a maior parte de nós ainda estava nas fraldas ou nem tinha nascido. Suas áreas recentes de pesquisa são: Comunicação, Semiótica Cognitiva e Computacional, Estéticas Tecnológicas e Filosofia e Metodologia da Ciência.

Sem contar com seus 41 livros publicados e seus mais de 300 artigos publicados em periódicos científicos no Brasil e no Exterior, podemos sintetizar sua trajetória assim:

Formação:
Graduação: Letras Português e Inglês. PUC/SP. (1966)
Doutorado: Teoria Literária PUC/SP (1973)
Pós-Doutorados: Indiana University, EUA (1993)
Gesamthochschule Kassel,Alemanha (2004)
Livre Docência: Ciências da Comunicação.ECA/USP (1993)

 

Atuação profissional e funções em instituições científicas:
Coordenadora da Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, Diretora do CIMID, Centro de Investigação em Mídias Digitais.

Coordenadora do Centro de Estudos Peirceanos, na PUCSP.

Presidente honorária da Federação Latino-Americana de Semiótica e Membro Executivo da Associación Mundial de Semiótica Massmediática y Comunicación Global, México, desde 2004.
Presidente, em 2007, da Charles S. Peirce Society, USA.

Membro do Advisory Board do Peirce Edition Project em Indianapolis, USA.

Membro do Bureau de Coordenadores Regionais do International Communicology Institute.

Prêmio Jabuti em 2002, 2009, 2011 e 2014.

Prêmio Sergio Motta, Liber, em Arte e Tecnologia, em 2005.

Prêmio Luiz Beltrão-maturidade acadêmica, em 2010.

Professora convidada pelo DAAD na Universidade Livre de Berlin, em 1987, na Universidade de Valencia, em 2004, na Universidade de Kassel, em 2009, na Universidade de Évora em 2010 e na Universidad Nacional de las Artes, Buenos Aires, 2014.

Pesquisadora associada no Research Center for Language and Semiotic Studies em Bloomington, Universidade de Indiana, em repetidos estágios de pesquisa, especialmente em 1988, pela Fulbright.

 

Quer mais?

 

O QUE É SEMIÓTICA?

Lúcia lançou em 1983, naquela coleção genial da Brasiliense, “Primeiros Passos”, o livrinho introdutório O que é Semiótica? Talvez, tenha sido meu primeiro contato com o tema. E, no livrinho, ela é sedutora com os leigos:

 

Uma definição ou um convite? Alguns anos atrás, em um seminário sobre Semiótica, realizado em uma das cidades do Brasil, um aluno que permanecia ainda muito curioso, apesar de já ter assistido a algumas palestras, subitamente me perguntou: — “Mas, afinal, o que é Semiótica?”.

Assim, de chofre, tomada de surpresa no corredor de passagem de uma sala a outra, devo ter respondido algo parecido com isto: — “Quando alguma coisa se apresenta em estado nascente, ela costuma ser frágil e delicada, campo aberto a muitas possibilidades ainda não inteiramente consumadas e consumidas. Esse é justamente o caso da Semiótica: algo nascendo e em processo de crescimento. Esse algo é uma ciência, um território do saber e do conhecimento ainda não sedimentado, indagações e investigações em progresso.

Um processo como tal não pode ser traduzido em uma única definição cabal, sob pena de se perder justo aquilo que nele vale a pena, isto é, o engajamento vivo, concreto e real no caminho da instigação e do conhecimento. Toda definição acabada é uma espécie de morte, porque, sendo fechada, mata justo a inquietação e curiosidade que nos impulsionam para as coisas que, vivas, palpitam e pulsam”. Sei que, em vez de dar uma resposta direta e positiva (função que provavelmente me cabia na ocasião), estava tentando armar uma estratégia de sedução. Em lugar de saciar a sua curiosidade, só queria aumentá-la. Contudo, o peso das certezas é sempre mais forte que o das dúvidas. Recebi, por isso, uma segunda pergunta que, aliás, não era mais uma pergunta, mas uma crítica só levemente velada: — “Que importância pode ter isso para nós? Nós que temos a resolver um problema muito mais prioritário e urgente, o da miséria e da fome?”.

Acenei, então, mais uma vez com uma sugestão de resposta: — “Há duas espécies de fome: a da miséria do corpo, esta, mais fundamental e determinante, visto que interceptadora de quaisquer outras funções, necessidades e realizações humanas; mas há também a carência de conhecimento, este, outro tipo de fome. Nossa luta tem de ser travada sempre simultaneamente em ambas as direções. A Semiótica está rapidamente se desenvolvendo em todas as partes do mundo. Por que haveremos nós de cruzar os braços, ficando à espera dos restos de sopa científica que os outros poderão, porventura, nos deixar de sobra?”

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A questão acima foi sendo aprofundada, respondida e extrapolada por cada trabalho de Lucia. De certa forma, toda vez que lemos alguns de seus trabalhos nos sentimos como aqueles terribles simplificateurs mencionados em um de seus livros, todos aqueles que utilizam algum aspecto do enorme instrumental semiótico para gerar uma semiótica ligth, perfeitamente cabível em discursos fáceis e reducionistas.

Quem sabe o diálogo possa esclarecer vários conceitos que proliferam e permanecem como esfinges indecifráveis para nós, mortais comuns. Qual a relação inseparável das linguagens e do pensamento? Onde entra a percepção nisso tudo?

Santaella fala em um ‘modelo computacional da mente’. Usa outros termos e afirmações que são bastantes sedutoras: “Tecnologias do Imaginário”, “A mistura é um espírito”, “A mente humana sempre foi híbrida”.

Como aperitivo para nosso diálogo, joguei-lhe aquela provocação/afirmação que já nos fez Andrew Keen eu seu livro Culto ao Amador.

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A cibercultura veio destruir a cultura como a conhecemos?

A cibercultura é, de fato, aquela camada da complexa cultura contemporânea que está mais à vista, devido à aderência onipresente da vida humana aos dispositivos digitais. Todavia, é um equívoco imaginar que a cultura digital substituirá e levará ao desaparecimento as outras formas de cultura que existiram antes dela. Para compreender a cultura contemporânea faço o esforço de penetrar nos turbilhões do tempo. É claro que é uma tarefa que vai muito além dos meus modestos limites, mas, é, pelo menos, uma tentativa de evitar a visão exclusivista do digital em close up que ora impera. Considero que a complexidade do contemporâneo se deve ao fato de que nele interagem, cruzam-se, complementam-se e contradizem-se seis formas de cultura que, desenvolvidas ao longo do tempo, foram formando camadas que nunca morrem, embora se refuncionalizem continuamente. São elas: a cultura oral, a escrita, a impressa, a cultura de massas, a cultura das mídias e, no momento atual, que certamente não será o último, a cibercultura.

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Bem, comecemos por aí. Creio que já deu pra alimentar um pouco a sua curiosidade intelectual sobre a “fêmea teórica” que vamos encarar no dia 30/10, a partir das 19h30 na Casa das Rosas.

Nosso diálogo você confere aqui:
 

 
 
Abaixo, você tem duas amostras dela falando sobre suas ideias, pesquisas e achados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Edson Cruz é escritor e editor do portal MUSA RARA (www.musarara.com.br). Graduado em Letras pela USP, publicou três livros de poesia, uma adaptação em prosa do clássico indiano Mahâbhârata e um livro de depoimentos sobre o que seria a Poesia. Seu poemário mais recente, Ilhéu (Editora Patuá), foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom 2014. E-mail: sonartes@gmail.com




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